Caros leitores,
Neste número, Luís Laginha de Sousa analisa a estrutura de financiamento da economia portuguesa, historicamente muito dependente do crédito bancário face a um mercado de capitais ainda pouco desenvolvido. Argumenta que o que é central é reforçar a complementaridade entre a Banca e o mercado de capitais, contribuindo, assim, para diversificar as fontes de financiamento das empresas e reforçar a resiliência do sistema financeiro — um desafio tanto mais urgente quanto maiores forem as necessidades de investimento associadas à inovação, à digitalização e à transição energética. Um tema muito importante que requer ação e implementação.
Também os choques geopolíticos são hoje muito relevantes, traduzindo um risco concreto e muito próximo. São uma realidade bem presente e com impacto na estabilidade financeira, contribuindo também para um aumento da incerteza e da volatilidade que se propaga através dos mercados. Esse impacto atinge diretamente as instituições financeiras, podendo ser amplificado por vulnerabilidades já existentes no sistema — ou, pelo contrário, atenuado por mecanismos de mitigação e respostas de política económica eficazes. São esses efeitos que explicam por que motivo um choque inicialmente localizado pode transformar-se em risco sistémico, culminando em perda de confiança e disrupção dos mercados financeiros. Perante o atual contexto e os riscos emergentes, o artigo de Stephan Fahr e Matei Kubinschi assume uma oportunidade e importância estratégicas.
Por seu lado, a supervisão comportamental assume cada vez mais um papel essencial no sistema financeiro. O artigo de Ricardo Oliveira Sousa traça o caminho de uma supervisão comportamental mais preventiva, estrutural e colaborativa, capaz de acompanhar um ecossistema financeiro cada vez mais fragmentado entre intermediários, plataformas digitais e novos riscos como a fraude digital. Fica claro que a confiança nos mercados bancários de retalho não depende apenas do supervisor, mas de uma responsabilidade repartida entre instituições, clientes e regulador.
Face à sua relevância, a dimensão tecnológica volta a este número através do artigo de Miguel Matias, que aborda a inteligência artificial conversacional, uma infraestrutura crítica da banca de retalho, que poderá reforçar ou reduzir a confiança dos clientes. Através da partilha de evidência empírica recente, defende que a eficiência não se traduz automaticamente em lealdade e que o fator decisivo não é a sofisticação técnica dos algoritmos, mas a forma como essa competência é comunicada — com calor relacional, transparência e uma via de escalada humana sempre disponível. Trata-se de uma reflexão muito importante e de grande oportunidade.
Já a dimensão humana, essencial na relação com o cliente, é o centro do artigo de Nuno Costa, que, com o olhar da psicologia dos investimentos, explica por que motivo, mesmo investidores bem informados, continuam a tomar decisões irracionais em momentos de stress. Identifica alguns enviesamentos psicológicos recorrentes e sublinha que o valor de um profissional financeiro não está apenas nos produtos que recomenda, mas na sua capacidade de gerir comportamentos, medos e expectativas. É uma abordagem que merece reflexão profunda.
A habitual rubrica “Sector Bancário Num Minuto”, da responsabilidade do Centro de Estudos e Publicações da APB, permite acompanhar de forma rápida e rigorosa os principais indicadores do sector bancário, proporcionando-nos uma compreensão clara e atualizada. É uma ferramenta essencial para todos os que trabalham no sector.
Nesta edição e através dos artigos que a compõe e das diferentes dimensões que abordam, da geopolítica à supervisão, passando pelo financiamento da economia, pela inteligência artificial e pela psicologia do investidor, fica reforçada uma ideia essencial: a estabilidade e o desenvolvimento do sistema financeiro dependem cada vez mais da forma como diferentes dimensões se articulam e se equilibram entre si.
Desejo-lhe uma leitura proveitosa.
António Neto da Silva
CEO do IFB
